Jogar Ténis ou Trabalhar Ténis
2009-02-17
O ténis Nacional vive neste momento um momento muito bom devido ao sucesso de alguns projectos individuais de características muito especiais que estão a dar cada vez mais notoriedade ao ténis Nacional além fronteiras. As marcas desportivas e os agentes estão com os olhos cada vez mais atentos ao que começa a sair do nosso país devido a visibilidade desses mesmos exemplos. Mas será que isto é reflexo da realidade do nosso ténis?
Quantos atletas temos nós na "traseiras" dos que estão neste momento a dar nas vistas?
Quantos atletas temos nós na "traseiras" dos que estão neste momento a dar nas vistas?
O ténis é uma modalidade mundializada e que envolve muito capital a nível mundial. É um dos únicos desportos que abre portas tanto na vertente masculina como na feminina, sendo que é o único desporto que tem um homem e uma mulher na lista dos 10 atletas mais bem pagos do mundo em todos os desportos - Federer com cerca de 23 milhões e Sharapova com 18 milhões de dolares apenas no ano de 2008. Sendo que Sharapova é a atleta mais bem paga do mundo em qualquer deporto e a única desportista dentro desta lista...sendo que o pódio feminino é todo do ténis.
No mundo todo, e principalmente em países e em famílias com mentalidade mundializada, há quem esteja disposto ao que seja necessário para atingir estes objectivos. Um atleta de top 150 em masculinos e de top 80 em femininos ganha já muito acima de quase qualquer profissão na maior parte do mundo, e tem a oportunidade de ter experiências fantásticas em todo o mundo viajando e participando nos melhores torneios com as melhores condições possíveis. Com a mediatização que consegue no seu país e no mundo, abre-lhe um conjunto de opções a nível mundial quando termina a carreira. Um atleta juvenil que atinja o top 50 mundial de juniores tem regalias muito semelhantes a um atleta de top senior, sendo que apenas não recebe prize-money. No entanto, há já contractos de verbas elevadas com marcas desportivas como a Nike, a Adidas, a Wilson, a Prince, e todas aquelas que têm impacto mundial e que podem vir a retirar lucros altos de uma "explosão" de um atleta no circuito profissional. Tem estadia nos principais torneios do mundo de juniores, e se for um dos melhores mundiais (em que vejam talento para ir mais longe), recebe já patrocínios que lhe custeam as viagens todas num projecto individual, bem como os custos do treinador particular de alto nível que geralmente é bastante caro e é a principal despesa nestas idades (e em quase qualquer idade).
Os bons atletas juvenis que não conseguem ou não querem apostar profissionalmente (ou que não têm condições), podem ganhar bolas de estudo para algumas das melhores universidades nos EUA com os cursos todos pagos, jogando em simultâneo a um nível bastante elevado e podendo seguir carreira após 2 ou 4 anos de curso superior. Foi o caso da Davenport, do James Blake, do Todd Martin, só para citar alguns dos mais conhecidos. Estas bolas equivalem a um investimento na ordem dos 200.000 dolares que é o custo médio de um curso nestas univerisades.
O retorno do ténis tanto a nível financeiro como a nível pessoal é enorme, sendo que as experiências que se obtém com ele a este nível são como os anglófonos costuma dizer...priceless!! Qual o impacto num jovem, quando correctamente orientado, de estar a viajar pelo mundo em busca de um sonho, conhecendo as diversas culturas, estabelecendo contactos no mundo inteiro, aperfeiçoando as diversas línguas e vendo e experimentando tudo o que os outros apenas vêm nos livros? Isto são experiências que não têm preço, e que se correctamente orientadas irão reflectir-se positivamente em toda a sua vida, mesmo que venha a seguir outro rumo que não o do ténis profissional.
Há países do mundo que já interiorizaram imenso esta perspectiva, e principalmente países que passaram por dificulades muito graves ao longo da sua história mais recente, ou países que devido ao seu percurso histórico têm uma mentalidade de excelência mundial que vem de nascença e passa de pais para filhos de uma forma cultural. A mentalidade que diz que se eu tiver um talento numa actividade que goste, é quase minha obrigação levar esse mesmo talento ao máximo das minhas capacidades.
No tour que se realiza no final do ano nos EUA, dá para sentir isto porque apanha os diversos escalões. Neste ano houveram 1300 a 1500 atletas dos vários escalões, e de todos os pontos do mundo, que estavam lá num dos maiores palcos em busca destes objectivos. Não havia um continente que não tivesse os seus melhores atletas lá representados. Atletas em selecções, com treinadores particulares, com pais e treinadores, com pais que eram os treinadores, de academias pelo mundo fora etc. A maioria deles conscientes do que exponho acima, e sabendo que é necessário esforço para vir a conseguir objectivos elevados e rentablizar ao máximo o tempo que passam neste momento dedicados a uma tarefa.
Há vários atletas que se mudam para os locais onde conseguem encontrar um bom treinador que esteja disposto a apostar nele, há familias inteiras que vão à procura de melhores condições de treino, há outros que fazem empréstimos para poderem contratar os melhores treinadores e equipas de treino para que os filhos possam tentar com o máximo de condições, etc, etc, etc. Todos conhecemos a história do Marat Safin, que aos 11/12 anos chegou a Valência SOZINHO com as malas porque queria treinar para ser profissional, ou dos pais da Maria Sharapova que chegaram aos EUA praticamente sem nada mas que se mudaram para que a filha pudesse treinar em condições, e muitos outros casos do género que quem anda no circuito juvenil sabe que se passam. A nossa própria Michelle, que a família se mudou toda para a Florida para lhe dar condições de explorar todo o seu potencial.
Será que em Portugal temos essa mentalidade? Pergunto-me quantas são as famílias que vão à procura das melhores condições de treino onde quer que elas estejam? Quantos são so atletas de 12 anos que estariam dispostos a estudar pela internet para treinar de manhã e de tarde num grupo da idade deles tendo em vista a procura de um objectivo a longo prazo, e quantos seriam os pais que estariam dispostos a aceitar uma situação destas para os seus filhos? Quantos seriam os miúdos de 12/13/14 que estão dispostos a deixar de ver o ténis apenas como uma brincadeira, e estarem dispostos a trabalhar ténis? Preocuparem-se com a sua alimentação? Fazerem preparação física todos os dias adequada à idade? Treinar 4 ou 5 horas por dia 5 a 6 vezes por semana? Fazer treinos particulares para trabalho de aspectos específicos de jogo com várias repetições em busca da "perfeição" que sabemos que nunca atingímos? Abdicar de grande parte da vida social fora do ténis de modo a procurar um objectivo? Passar um mínimo de 20 semanas fora de Portugal em torneios internacionais, mais estágios etc? E quantos treinadores estariam dispostos a fazer este tipo de apostas, que exigem estudo e actualização constante do que de melhor se faz no mundo e um nível de entrega elevado com a responsabilidade de viajar com filhos de outros para fora do país? E quantos treinadores temos em Portugal capazes de o fazer com qualidade?
Em Portugal, nos poucos projectos privados que existem com estes objectivos, os atletas ficam geralmente muito isolados porque contam-se pelos dedos das mãos aqueles que estão a tentar seguir um percurso profissionalizante nesta modalidade. Como se isto não fosse duro o suficiente, a mentalidade negativa e invejosa que caracteriza o nosso país em diversas situações faz com que uma das motivações do jovem para a modalidade - o reconhecimento - seja muito complicado de gerir, visto que ele é praticamente inexistente no pais em que vivemos. Em vez de valorizarmos aqueles que estão a tentar fazer algo de diferente com todos os aspectos acima mencioandos, temos tendência em ir buscar as coisas que a nosso entender estão mal no projecto em causa, e de soltar cá para fora todas as nossas invejas. Isto pode rebentar a motivação de muitos jovens atletas que ao estarem a fazer um esforço pessoal elevado, com cargas emocionais elevadas que existem num projecto de alta-competição, sentindo o esforço financeiro que os pais fazem e não tendo muitos colegas ao lado a fazer o mesmo (antes pelo contrário), podem-se questionar..."para quê??" Para quê que eu me vou tar a esforçar num país que só sabe é falar mal e não reconhecer as coisas que são bem feitas quando até posso ter uma vida sem chatices e com bastante divertimento?
Num país em que o sistema escolar tb não ajuda e que há muito poucos com actividades extra-curriculares (ao contrário de muitos outros países em que é quase obrigatório), e quem estuda pela internet ou por correspondência é um "extraterrestre", um dos principais factores em idades juvenis que é a integração, não está presente, visto que em vez de valorizado, o atleta é olhado como um ser estranho...
A cultura de trabalho e de esforço para objectivos a longo prazo não é um dos fortes do nosso país, e esse é um dos aspectos que temos de mudar se queremos evoluir no ténis internacional. O Acreditar, tal como já referi numa das minhas primeiras crónicas, é um dos factores fundamentais, assim como a motivação. A meu ver vêm as duas de mãos dadas. No ténis feminino estes factores são ainda mais relevantes visto que as motivações para a competição individual são ainda mais externas do que no ténis masculino. Se estas não estiverem presentes torna-se ainda mais complicado...
Para além disso, penso que no nosso país joga-se cada vez mais ténis, mas ainda se trabalha muito pouco ténis. E isto está decorrente dos factores que expus acima e da falta de consciência sobre o nível de competição internacional que existe. Não é incomum encontrar comportamentos que espelham a falta de noção do que é necessário trabalhar ténis para atingir determinados patamares internacionais. Ainda há alguns anos enquanto seleccionador das camadas jovens e viajando com vários atletas juvenis de topo em Portugal na altura, num determinado torneio apanhei vários atletas a apanhar bebedeiras em conjunto entre dois torneios internacionais de sub 16, ou atletas de sub 14 e sub 16 que é preciso estar a mandá-los para a cama quando têm jogos importantes no dia seguinte, ou o simples facto de toda a gente andar a comer gelados e batatas fritas nos diversos torneios com refrigerantes gaseificados, ou a falta de preocupação com outros muitos aspectos que são vitais para quem tenciona ser jogador, ou pelo menos tentar em condições. Lembro-me de estar no campeonato da europa de sub 16 na Bélgica em 2004, e de estar com o seleccionador de sub 16 femininos de Espanha que acompanhava na altura a Carla Suarez Navarro. Viajámos por mais alguns torneios e europeus juntos tais como a Winter Cup, e alguns ITF's juniores, e comentei com ele que nunca as vi fora do quarto depois das 22h. A eles e a quase todas as que estavam neste tipo de enquadramento. Descontraídas e divertidas mas sempre bem dispostas a fazer tudo o que tinham de fazer sem reclamar relativamente à alimentação, dormidas, treinos, físico, etc... e a Carla treinava na altura individualmente fora de qualquer centro de treino com um treinador particular.
Quando estamos inseridos numa realidade em que praticamente ninguém faz determinados tipos de "sacrifícios" em nome de um objectivo a longo prazo, é muito difícil um atleta na adolescência fazê-lo expontaneamente e naturalmente sem que esteja sempre a questão na sua cabeça de "mas só só eu que faço isto?"
Daí a importância do atleta ser exposto em idades precoces a ambientes que lhe façam ver que se quiser ser realmente jogador terá de fazer aquilo que os outros todos lá fora também fazem...e perceber que a competição é dura e que exige esforço em todos os patamares de treino...mas que tem diversas recompensas a diversos níveis (profissional, universidade, experiências pessoais).
Jogar ténis competitivo e participar em algumas competições como intrumento de formação de personalidade e desenvolvimento saudável é extremamente benéfico a todos os níveis, mas se queremos ter atletas de alto rendimento, o percurso é diferente, e para não dependermos quase do "acaso", é preciso criar uma cultura de "trabalhar ténis" no seio dos nossos melhores jogadores nos diversos escalões e é preciso valorizar aqueles que estejam dispostos a isso, sabendo que estão a investir pessoalmente e financeiramente nessas carreiras e que a gratificação externa é muito importante nestas fases. A meu entender este é um factor vital, e um dos determinantes no sucesso ou insucesso futuro do nosso ténis.
Autor: Coutinho, César
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(2 comentários)
2009-02-19 12:37:02 | Joao Aldeia
É mais uma interessante comunicação de um jovem técnico que pensa a modalidade com paixão e que eu espero que a curto prazo possa contribuir de forma marcante na evolução que todos aguardamos no ténis português.Sobre o texto o que se me oferece dizer é o seguinte:
A crónica apresenta em parte um filme cor de rosa promovendo a carreira profissional, não que tenha uma visão contrária, mas por outro lado, parece-me que existe alguma subjectividade quando refere os exemplos do Safin e da Sharapova. Creio que ninguém(além dos próprios) sabe ao certo como as coisas se passaram ou se naqueles casos houve risco ou não, além da especulação que muitas vezes é feita em torno destas notícias. Por exemplo, eu conheço emigrantes de leste que aqui chegaram sem nada, e hoje têm casa(própria) com garagem, dois carros etc..., e se por acaso tivessem trazido um filho com talento para o ténis teriam juntado o útil ao agradável. Quanto ao caso da Michelle, do qual não possuo dados fidedignos, também não sabemos se aquela decisão implicava risco ou não para a família. O que se sabe é que era um projecto aliciante em parte financiado e com boas perspectivas de sucesso. Não percebi bem se o texto constitui uma crítica ou um lamento pela forma que alguns potenciais pais/jogadores encaram o ténis de alta competição. Contudo, considero que cada um decide a sua vida, nenhum pai tem de arriscar o futuro da própria família e atirar-se de olhos fechados no profissionalismo, só porque o país anseia por jogadores de top. Refira-se que apenas são mediatizados os exemplos de sucesso, claro que devem existir situações de insucesso e vidas serão seriamente prejudicadas e arruinadas(tive conhecimento de um caso), sendo que dessas situações também de deve consciencializar os pais mais entusiasmados.Permita-se-me ainda uma pequena observação para o facto do autor deixar no anonimato e omitir a escala de grandeza, tanto quando faz alusão ao reconhecimento como quando se refere à mentalidade negativa e invejosa.
Parece-me também, que com algumas interrogações o César(porque tem conhecimento de causa) não acredita que presentemente exista material humano suficiente em condições de singrar no profissionalismo, tanto ao nível de atletas como de técnicos. Entendo que da forma que o ténis está organizado no país, presentemente o profissionalismo tem de ser encarado como fez o Frederico, "pé ante pé", sem loucuras (tenho a sensação de que assim aconteceu). A alternativa, talvez fosse uma Federação financeiramente forte que subsidiasse/patrocinasse parcialmente os candidatos ao profissionalismo, através de Centros de Treino(com admissão de atletas subjacentes a um regulamento que consignasse objectivos a atingir) que facultassem aos jovens todas as condições que o autor sugere aqui e noutras crónicas já publicadas, mas essa condição económica ainda não existe.
Portanto, neste momento o que me ocorre dizer é que todos "JULGAMOS SABER", o que é preciso para ter jogadores de alto rendimento, há os factores de ordem social, mental, técnica e financeira, mas a questão fulcral mantém-se, sendo imperativo que a Federação(como entidade líder da modalidade) implemente os projectos que tem em carteira, porque eu acredito que esses projectos existem, uma vez que são indissociáveis da abnegação e dedicação dos dirigentes e técnicos federativos à modalidade.
Apenas lamento, a falta de informação com que a F.P.T. presenteia os restantes parceiros. É precisamente o silêncio federativo que provoca o descrédito de muitos agentes, atletas e familiares em relação àquele organismo.
2009-02-17 10:51:19 | André Luso
Creio que os factores focados aqui dão uma clara mostra do porquê de não se ter mais jogadores apostando numa carreira a sério.Falta de coragem e de tomada de riscos, a inveja de quem está de fora, a tão nacional falta de espirito de sacrificio e, claro está, a falta de apoio escolar para quem opta por arriscar no ténis.
Creio apenas faltarem dois factores que, na minha opinião, deveriam estar junto com estes nesta análise - os pais e os custos elevados.
Entendo que nalguns casos, e em muito tenra idade, são os próprios pais que acabam por estragar os jogadores ao dar-lhe um estatuto de "vedeta" e de grande importância que eles, não só não têm, como não deviam sentir pois afasta-os do trabalho sério e das directrizes de quem profissionalmente com eles trabalha.
Nos torneios dos mais novos, que tenho oportunidade de acompanhar cada vez mais, vê-se um pouco de tudo, desde o pai alheio ao valor do seu filho, até ao pai que coloca o seu filho num patamar acima de todos os outros, esquecendo-se muitas vezes que mesmo sendo o ténis um desporto individual está totalmente dependente de um grande equilibrio entre todos e que jogar um torneio para se ganhar fácil pode representar tempo de trabalho desaproveitado.
Há, felizmente boas excepções que tive já oportunidade de observar de pais que parecem ter e transmitir os correctos valores e não se deixam embarcar por entusiasmos exagerados.
Em relação aos custos elevados é óbvio que, mesmo com o aparecimento de patrocinios de material em grande número, e com a FPT a investir muito dinheiro a levar os nossos jovens lá fora, o dinheiro a investir numa, que seja apenas, tentativa de carreira é muito. Falamos de treinadores privados dedicados a um pequeno grupo de jogadores, algum material extra patrocinio que é necessário para além de deslocações e estadias em torneios, estamos a falar sempre de um orçamento de mais do que um salário minimo por mês o que leva a que as nossas promessas tenham quase exclusivamente que vir das classes mais altas, havendo um filtro enorme e inultrapassável dos mais remediados e mesmo da, cada vez menor, classe média. Se a isto juntarmos uma instituição de ensino particular de maneira a ser possivel ter mais tempo para treinar pode aproximar-se facilmente dos 1000 Euros por mês.
É minha opinião que o investimento em clubes privados será sempre o caminho correcto e que o papel da FPT se deve resumir, tal como é feito hoje em dia, a disponibilizar as verbas para que os melhores possam ser ajudados a ir lá fora jogar torneios. No entanto e neste quadro a politica dos clubes tem necessáriamente que mudar fazendo com que sejam as escolas a pagar a competição de maneira a que quem, com qualidade, representa o clube possa tirar dividendos dessa mesma representavidade, cabendo ás Associações regionais o papel de estimular e valorizar muito mais os campeonatos de Inter-Clubes por exemplo.



