Ténis Juvenil de Competição 1ª parte - Pedro Bívar
2009-02-13
Este trabalho será divido e apresentado em duas partes, esta primeira tem como principal assunto as idades e o ser ou não demasiado novo para começar, a 2ª parte é uma comparação entre a Europa Ocidental e Europa de Leste que principalmente no ténis feminino apresenta jogadoras de alto nivel cada vez mais novas.
Esperamos que este estudo ajude ao debate que promovemos no nosso site sobre a profissionalização de mais jogadores em Portugal e das condições requeridas para tal.
O Objecto desta apresentação tem 2 vertentes:
- tecer algumas considerações e lançar alguma discussão sobre a questão de se saber se o jovem jogador de Ténis está presentemente a especializar-se na modalidade demasiado cedo e que consequências podem daí advir para o seu futuro desportivo;
- como essa especialização é aparentemente mais exacerbada nos chamados ex países do Leste Europeu saber em que medida é que ela contribui (ou contribuiu) para o sucesso dos jogadores daí oriundos.
Na apresentação inclui-se um inquérito feito a alguns dos melhores jogadores, sobretudo Europeus, do Escalão de Sub 14, quer dos chamados países do Ocidente quer de Leste, onde se procurou através de um questionário de 12 perguntas, estabelecer o que os une e separa em aspectos como por ex. a idade com que começaram a jogar Ténis e quantas horas diárias têm de treino.
Deve começar por dizer-se que o estudo da Especialização Precoce, definição, causas e efeitos é vasto e não é recente e apesar de tudo não é consensual a opinião dos autores sobre os prejuízos ou vantagens que dela advêm.
Genericamente é vista como a prática de actividade desportiva concentrada num único desporto, cujas cargas de treino e competições não são apropriadas para as idades em que são praticadas.
Algumas das suas potenciais consequências seriam:
- uma formação escolar deficiente devido a grande exigência em acompanhar com êxito a carreira desportiva;
- a unilateralização de um desenvolvimento que deveria ser plural;
- reduzida participação em actividades, brincadeiras e jogos do mundo infantil, indispensáveis para o desenvolvimento da personalidade na infância;
- stress competitivo: que se caracteriza por um sentimento de medo e insegurança, causado principalmente por conflitos oriundos de uma prática excessivamente competitiva. A criança, neste caso, tem medo de errar, sente-se insegura e com a auto-estima ameaçada;
- saturação desportiva: que se manifesta quando a criança apresenta sinais de desânimo e desinteresse em continuar a prática do desporto, levando a um eventual abandono;
- lesões: que advêm, principalmente, da prática em excesso e inadequada para a faixa etária.
A maior parte dos autores distinguem-na da Iniciação Desportiva, esta sim consensualmente tida como saudável porque orientada para a prática regular de várias modalidades desportivas em que o objectivo é dar continuidade ao desenvolvimento da criança de forma integral e não implicando competições regulares onde o objectivo é a performance.
A primeira seria tida como a Pedagogia do Rendimento, desprezando-se assim a riqueza das práticas lúdicas em nome da preparação de futuros atletas à qual se oporia a segunda, a Pedagogia do Desporto que trata o Desporto infantil e a Iniciação Desportiva como um período relevante para:
- se desenvolver as capacidades motoras
- aprender as habilidades técnicas e tácticas
- para se aprender a cooperar
- para se construir autonomia
- para se aprender a gostar de Desporto
- para se aprender uma cultura de lazer desportivo
- para se aprender a competir
- a dialogar
- a motivar-se
- a fomentar a auto-estima
Como corolário desta acepção é preciso a participação em diversas modalidades desportivas antes de se optar pela especialização numa.
Alguns autores preconizam que a Iniciação Desportiva da criança deve obedecer a 2 fases distintas: a Geral e a Especializada.
Na Iniciação Geral, dos 2 aos 12 anos de idade, o objectivo maior é a formação, a preparação do organismo a esforços posteriores, o desenvolvimento das qualidades físicas básicas e o contacto com os fundamentos das diversas modalidades. Não deve haver uma preocupação centralizada na competição desportiva.
Na fase seguinte, entre os 12 e os 14 anos, o adolescente é orientado para a especialização desportiva
Bom, a Iniciação Desportiva e Especialização Precoce seriam, por assim dizer a Bela e o Monstro.
Mas será que no Mundo actual, como estão globalmente estruturadas as Sociedades, cada vez mais especializadas e com uma competitividade latente em cada aspecto da vivência de crianças e adultos, se poderá fazer uma distinção tão transparente e linear? Será que é tudo branco e preto? Não haverá zonas cinzentas?
Em mais de 20 anos de deslocações por torneios Internacionais Juvenis tenho-me deparado ao longo do tempo com profundas alterações quer ao nível da participação dos atletas (em quantidade e qualidade) quer ao nível do empenhamento dos respectivos países, cujas federações como que obedecendo a um desígnio Nacional parecem empenhadas em prepará-los e colocá-los em competições Internacionais cada vez mais cedo.
Quando nos lembramos que em 1983 competiam em Tarbes no Les Petits As, considerado oficiosamente o Campeonato do Mundo Sub 14 e apelidado pomposamente pelos próprios "Le Mondial dês 12-14 ans!", 4 Nações e que em 2008 competiram 52, ficamos com uma ideia do salto que deu o ténis Juvenil. Aliás basta assistir a este ou a qualquer outro grande Torneio do calendário Internacional Juvenil Sub 14 ou mesmo Sub 12 para se perceber que estes deixaram há muito de ser uma brincadeira de e para crianças para ser uma verdadeira indústria que move milhões em todo o mundo e em que países e jogadores estão igualmente empenhados em dar o seu melhor.
"Les Petits As" 2008
Atentemos na impressionante logística deste Torneio :
- Organização: 150 pessoas envolvidas
- Orçamento: 710.000€ (54% Parceiros privados - 46% Parceiros Institucionais)
- Campos: 10 courts cobertos + 4 courts cobertos e 2 courts exteriores para treino
- Espectadores (entrada gratuita) - 40.000 durante o Torneio
- Assistência de Escolas de Ténis e estudantes: 10 000 jovens durante o Torneio
- Hotelaria: 12 Hoteis com uma ocupação de 4.000 dormidas com p.almoço
- Restauração: 8.000 refeições servidas durante o torneio
- Jogadores: 350 (Q.Principal e Qualificação) + 7.000 participantes de Clubes Franceses em
50 Torneios de Pré Qualificação
- Media: TV - 9 canais de Televisão ( Eurosport com difusão em 20 Países)
Jornais - 10 Jornais Nacionais e 45 regionais
- Nações presentes: 52 dos 5 Continentes
- Transportes: 16 veículos postos à disposição das Equipas e 36.000Km percorridos...
- Village: 2.800 m2, 45 stands, 1 Restaurante
"Les Petits As" 2008
Ainda recentemente vim dum Torneio Sub 14, Cat.1, em Paris, BNP Paribas, em que existiam mais recepções para patrocinadores e dignitários do que actividades para os atletas.
Compreende-se, explicaram-me, com o nível e prestígio internacional que o torneio já alcançou em 19 anos de existência, que uma das principais preocupações dos seus organizadores fosse os aspectos financeiros. Aliás uma das criticas que mais se ouviu durante aquela semana entre alguns dos treinadores mais velhos, que como eu conheceram o Torneio nas primeiras edições, foi que justamente o Torneio tinha deixado de ser um evento para crianças e evoluído mais para um negócio para empresários em que por acaso alguns miúdos jogavam ténis.
Não se pense que com isto os jovens atletas sejam desprezados ou mal acarinhados nestes torneios. Antes pelo contrário, sobretudo os que vão ganhando (não necessariamente os melhores) são muito acarinhados e tratados com as maiores deferências, não vá por alguma sorte do destino andar por ali algum Nadal...Estou até convicto que não tardará muito até que os melhores Torneios Internacionais Juvenis, a exemplo dos seus congéneres Seniores, comecem a pagar prémios de presença às maiores estrelas, se é que o fenómeno não se verifica já em pequena escala e para um punhado de eleitos.
Por seu lado os jovens atletas sentem cada vez uma maior pressão para jogarem mais, melhor e mais cedo. Os jogadores hoje treinam mais e competem muito mais que há 10 anos atrás.
É na transição dos escalões dos Sub 12 para os Sub 14 onde é mais visível esse aumento em cargas quer de treino quer competitivas e onde se acentuam diferenças em aspectos técnicos, físicos, tácticos e mentais. Tecnicamente os sub 14 já conseguem fazer quase tudo (têm recursos) e sabem como e quando utilizá-los (táctica). Fisicamente existe uma grande diferença dos sub 12 para os sub 14. Enquanto os Sub 12 são crianças e jogam como crianças, muitos Sub 14 parecem homens e mulheres e jogam quase como tal.
No ténis Juvenil as maiores diferenças físicas parecem ocorrer nas raparigas dos 12 para os 14 anos (sobretudo dos 13 para os 14 anos), atenuando-se depois disso e nos rapazes dos 14 para os 16 anos.
A potência de jogo aos 14 anos tem pouco a ver com a forma de jogo dos sub 12. Pode dizer-se que a categoria de Sub 12 é jogada ainda num ritmo de cruzeiro e que a partir daí passa-se para um ritmo vertiginoso. Não vai aumentando gradualmente mas antes tem um incremento exponencial em todas as componentes do jogo.
É uma fase onde todas estas componentes são tratadas de forma quase exaustiva e em que os jogadores começam a encarar a hipótese do profissionalismo mais a sério e não apenas este visto como um sonho inconsequente.
Não é por acaso que é nesta fase que começam a surgir as primeiras dificuldades mais complicadas (sobretudo em Portugal) em conciliar o Ténis com os Estudos e em que alguns jogadores, pelo menos a nível internacional, começam a estudar por correspondência ou através da internet, fazendo apenas os testes finais de passagem de ano.
O que pensar desta especialização tão precoce em que os jovens atletas não têm tempo de ser crianças e desde muito cedo têm de ser treinados para dominar competências que quiçá fossem mais próprias de outras idades?
Aliás este fenómeno parece constituir uma inflexão na politica seguida até à pouco tempo pela ITF ou TE, depois de a total liberdade competitiva deixada ao ténis Juvenil ter produzido, entre outros, casos tão graves e mediáticos como os protagonizado por Andrea Jeager, Tracy Austins ou Jennifer Capriatti, que aos 14/15 anos eram profissionais, atingindo ½ finais de Grand Slam e já praticamente sustentavam as respectivas famílias e que de uma forma ou doutra vieram a ter graves problemas físicos ou mesmo psíquicos devido em grande parte, sabe-se hoje, à enorme pressão física e mental a que foram submetidas em idades em que seguramente não tinham armas para lidar com ela.
A TENNIS EUROPE (TE) tentando aliviar um pouco essa pressão a que os jovens atletas eram submetidos acabou por exemplo há vários anos com o Campeonato da Europa Individual Sub 12 e com uma Classificação Internacional deste escalão e juntamente com a ITF através da Regra da Elegibilidade impede e limita, hoje em dia, a participação de jovens jogadores em Torneios Profissionais e mesmo em Torneios do Circuito ITF Junior.
Contudo, contrariando essa tradição mais intervencionista de não expor demasiado cedo estes atletas a competição Internacional, a própria TE criou em 1999 um Circuito Internacional TE Sub 12 praticamente à imagem e semelhança dos seus congéneres Sub 14, Sub 16 e Sub 18, a que chamou expressivamente "Tennis Europe Junior Tour - 12 & Under".
Em 2008 compõem este Tour 53 Torneios espalhados por toda a Europa, quantidade de torneios, apesar de tudo, muito distante da verificada nos Escalões subsequentes: por ex. 120 Torneios nos Sub 14.
Para se ter uma ideia do salto qualitativo e quantitativo operado diga-se que antes de 1999 existiam esporadicamente, sobretudo em França, uma meia dúzia de torneios Internacionais Sub 12.
Segundo palavras da própria TE a criação deste Tour 12 & Under correspondeu, depois de cuidadoso debate, à popular decisão de lançar esta nova categoria, a pedido de muitas Federações Nacionais, que sentiam a necessidade (falavam da "vital need...") de dar experiência Internacional aos seus mais jovens jogadores, assegurando ao mesmo tempo que os mesmos não ficariam expostos a pressões excessivas, devido a imperarem determinadas regras comuns nos Torneios que compõem o Tour.
Por este último motivo o Tour 12 & Under diferencia-se das categorias etárias mais elevadas nos seguintes pontos:
- Não existem Rankings;
- Não existe Campeonato da Europa Individual, nem Masters;
- Os Torneios que compõem o Tour são organizados quando possível em conjugação com outros desportos e eventos culturais;
- Obrigatoriedade de Torneios de Consolação para os jogadores que perdem nas 1ª e 2ª Rondas das Provas de Singulares;
- Os Torneios podem ser organizados no sistema de eliminação directa ou no sistema de round robin até às meias finais;
- Um jogador pode jogar um máximo de 10 Torneios;
- Não há categorias nos Torneios. Todos têm o mesmo estatuto;
- Os Torneios são abertos a jogadores de todos os países Europeus nas mesmas condições. Não existem Provas de Qualificação (excepto para jogadores locais);
- Os convites para participação são enviados para as Federações Nacionais, que são abertas e não com o nome de jogadores. Em nenhuma circunstância os convites podem ser enviados directamente para jogadores;
- Não há cabeças de série.
Respondendo de igual modo a solicitações das Federações Nacionais, a TE em 2007 criou também um Campeonato da Europa Sub 12, só que desta vez não Individual, mas por Equipas, a que chamou "Tennis Europe Nations Challenge by HEAD" com o objectivo (expresso por essas Federações) de dar oportunidades internacionais por Equipas a esta categoria etária à semelhança das European Summer Cups para as categorias subsequentes.
Logo nesse primeiro ano, as equipas de 53 Nações viajaram para as Zonas de Qualificação Masculinas e Femininas, das quais as 2 melhores avançavam para as Rondas finais. Os Encontros são disputados no sistema de round-robin.
Apesar destas preocupações expressas pela Tennis Europe de evitar pressões excessivas nos jovens jogadores nem toda a gente está de acordo com esta mudança de politica que parece estar a ser operada pelos principais Organismos que gerem o destino do Ténis Internacional.
Existem alguns responsáveis federativos de alguns países ocidentais com nível elevado, que acham um erro a TE ter elaborado um calendário Internacional Sub 12 e ter introduzido de novo um Campeonato da Europa, mesmo por Equipas, vendo até nestas inovações um prelúdio do que virá a seguir, que poderá ser, consideram, a tentação num futuro não muito distante de elaborar um Ranking Internacional Sub 12, fomentando desta forma ainda mais a precocidade competitiva dos jovens jogadores.
Há mesmo quem pense dentro da hierarquia da ITF que a Precocidade pode estar a matar o Ténis. Em conversas "off the record" há quem opine que um dos problemas é a Regra da Elegibilidade, que reduziu o nº de Torneios de categorias superiores ou do Circuito Profissional em que um jovem jogador pode participar, mas não os proibiu até certa idade.
Convenhamos que não é propriamente pouco uma jovem de 13 anos, para além dos Torneios do seu próprio escalão, poder participar em 10 Torneios do Circuito ITF Júnior (se for top 50 ITF Júnior Ranking tem um bónus de participação em mais 4) ou a partir dos 14 anos em 8 torneios do ITF Women's Circuit ou que a partir dos 14, apesar de só com WC, poder participar em 3 Torneios WTA e além disso poder participar a partir dos 14 anos na FED CUP e nos Jogos Olímpicos a partir dos 15.
Uma medida que combateria sem dúvida a Precocidade no Ténis, para alguns destes responsáveis da ITF, seria a obrigatoriedade dos atletas terem pelo menos o Ensino Secundário antes de poderem participar em Torneios Profissionais.
Mas será isto viável nos tempos que correm?
Com a industrialização que ocorreu no ténis e no desporto em geral seria possível estar à espera que os maiores talentos só participassem a partir dos 17 ou 18 anos nos grandes torneios?
E se tal fosse possível estariam eles aptos a suportar as exigências (Técnicas, Físicas e sobretudo Psicológicas) que lhes seriam pedidas nessa altura, tendo tido um passado menos exposto a grandes pressões competitivas internacionais?
No fundo uma das questões que está aqui em análise é saber se é possível hoje em dia produzir jogadores de competição de sucesso evitando a Especialização precoce?
Um problema relacionado com a Especialização Precoce é o Abandono Precoce. Quando assistimos a jogadoras como Justine Henin, Klijsters, ou Hingis que no topo da hierarquia mundial desistem de jogar na faixa dos 20 anos temos de nos perguntar se não estaremos em face de um fenómeno novo em que a par de começarem precocemente uma carreira tenistica também a abandonam precocemente.
Talvez seja cedo para se tirarem conclusões e constituam casos isolados, mas pode não ser arriscado avançarmos estarmos face a uma nova tendência: um "Burn Out"/saturação precoce. Quão longe parece estarmos de jogadores como Jimmy Connors, Navratilova que aos 40 anos ainda jogava ao mais alto nível nos grandes palcos internacionais.
Continua com a 2ª parte: Ocidente vs Leste Europeu
Autor: Bívar, Pedro
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